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O universo gastronômico está em toda parte – Mega post de estréia

setembro 15, 2009

São Petersburgo – Brasília – Rio de Janeiro – São Paulo – São Petersburgo

Convicto que o interesse gastronômico pode funcionar como uma lente para olhar o mundo e confortado pelo frio ameno daqueles deliciosos dias prateados quando o sol brilha fraco atrás de um céu baixo, parti de Ipanema direto para o Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Corri para ver os últimos dias da mostra Virada Russa por lá, a exposição chega a São Paulo hoje, 15 de setembro de 2009.

SE LIGA! Depois de passar por Brasília e Rio, essa mostra traz para São Paulo algumas das obras dos mais badalados artistas (e outros nem tanto) da chamada Vanguarda Russa e vieram diretamente do Museu Estatal de São Petersburgo. Em meio a um turbilhão de acontecimentos políticos e sociais esses artistas ousaram recorrer à liberdade na escolha de temas, estilos e gêneros de criação propondo novas maneiras de apresentar sua arte no início do século XX.  Esbarraram com a aquilo de mais atual que acontecia no campo artístico europeu e traduziram isso em obras incríveis, posicionando a Rússia na vanguarda da arte mundial.  Essa gente prafrentex, teve como compromisso comum revolucionar a estética de então, mais tarde foram considerados verdadeiros precursores e mesmo defensores fiéis de novos movimentos artísticos, alguns se mantiveram leais até o fim dos seus dias, outros foram passando por vários movimentos e  outros deram conta até criar grupos e de proclamar manifestos.

SUPER! É fascinante estar à frente de obras de Maliévitch, Kandíski e Chagall. Melhor ainda foi perceber que obras representativas de diversos movimentos  suscitaram em mim questões relativas aos temas, às imagens, aos símbolos e aquilo que considero como provocações (no melhor sentido que essa palavra assume) ligadas em maior ou menor grau ao universo gastronômico.

A SACAÇÃO.

Ao começar a exposição sabia apenas que os vanguardistas russos além de artistas também foram viajantes e que apreciaram, por um tempo, representar o tradicional em um novo prisma artístico. Mas também houve os que preferiram usar de elementos que representavam a nova ordem de então, ou os que estavam olhando mesmo para o futuro.

O que me faz escrever sobre o assunto é algo que ficou na minha cabeça nos últimos tempos. Pensei, se o especialista em arte se preocupa com os atributos formais da obra, suas qualidades técnicas e da forma. E se esse ou outros especialistas são capazes de estabelecer um paralelo entre arte e psicanálise (corrente fundada pelo próprio Freud) percebendo o conteúdo latente da obra, e, quem sabe, as intenções do autor, fazendo com que a obra diga mais do que está simplesmente representado ou mesmo algo diferente. Eu como simples apreciador e sem qualquer leitura consistente sobre a temática só posso mesmo me inquietar com a recorrência de vários elementos ligados ao universo gastronômico nas obras desses artistas.

A pergunta fundamental foi: Será porque tantos artistas se utilizam de metáforas construídas sobre a representação do plantio, da colheita, da criação de animais, de um determinado alimento, do homem à mesa, de um casal no restaurante ou de utensílios culinários para mexer com nossa sensibilidade?

ENGROSSANDO O CALDO

Vários temas passaram pela minha cabeça, seja sobre os “detalhes” daquilo que foi representado, seja sobre seu simbolismo.  É óbvio que o que nos emociona numa obra não está ligado exclusivamente à forma do que está representado, mas, sobretudo, àquilo que remete a “vida imaginária do homem”. Mas aquilo que está representado pode ser desse ou daquele jeito, quais os detalhes daquilo que está representado? Caso insista em pensar como um psicanalista, não devo acreditar que pode ser no detalhe que está a essência das coisas e nada pode ser negligenciado?

Mas antes disso, terá a gastronomia algo a contribuir para o conhecimento das artes, uma vez que elementos do seu universo são tão usuais nessas e em outras obras, nesse conjunto ou em outros? Alguém dirá…e vamos à exposição.

Logo na primeira sala a pintura Árvore (1910-11)óleo/tela de Lariónov, mostra em primeiro plano uma árvore e ao fundo distintas senhoras de época.a tree

A árvore (título da obra, que suponho elemento central, onde me sinto compelido a concentrar minha visão). Que espécie de árvore seria essa? Originária dessa ou daquela região? Será que é uma árvore que dá frutos apreciados pela cultura local? Há nessa árvore um animal abatido e dependurado, que animal seria? O consumo da sua carne seria fresco ou passaria por algum processo que garantisse seu consumo posterior – defumação? salga? Com que freqüência se podia ver essa cena à época? Amarrar de ponta a cabeça a proteína animal do almoço era hábito difundido em quais classes sociais?

Foi assim que segui a contemplar a exposição, percebendo que o simbolismo dos quadros (talvez boa parte do que nos encanta) pode ser, em parte, desvendado a partir de um entendimento gastronômico. Ao fim saí convencido de que tudo que envolve a alimentação tem mesmo uma posição estratégica no sistema de valores desses artistas, assim como em diversas sociedades. E finalmente que o mundo se revela mesmo de acordo com nosso interesse.

COLHER DE CHÁ. Anotações sobre as demais 12 obras que remetem de alguma maneira ao conhecimento gastronômico ou alimentar.

Sigo e encontro o Polipito de nove partes “Colheita das uvas” (1911) da serie Campanesis, de Gontcharova. Nessa tela dois homens do campo carregam uns tachos sobre a cabeça, o resto o título da obra já anuncia. A imagem reforça as idéias vigentes de valorização de cenas cotidianas, tradicionais, quase folclóricas (palavra aqui usada sem qualquer receio, já que nas artes falar de folclórico não parece despertar a ira de alguns setores como no mundo das ciências sociais). Mas o que me instiga nesse momento é mesmo: Qual seria a cepa das uvas retratadas, seriam destinadas ao consumo final ou à produção de vinho? Seria para o consumo das famílias no campo, era comercializado na cidade, ou teriam os camponeses russos pretensões de exportá-las?  Muitas luas ilustram o quadro, isso quer dizer que voltavam os homens do trabalho apenas ao cair da noite? De manhãzinha antes do nascer do sol? Ou será que era possível colhe-las durante a noite? Havia algum motivo especial para isso?

Ainda na primeira sala uma natureza morta composta basicamente por pães – Pães. (1912).  Natureza morta, óleo/tela, de Ilía Machkov - Ai que delícia! E de novo perguntas: Que tipo de pães são esses? Representam uma diversidade que dá conta do consumo de diferentes regiões geográficas, de distintas classes? Por quais métodos eram feitos? Quais os ingredientes? Será que eram mais comumente feitos em casa ou por algum especialista estabelecido nas proximidades?

Passando a segunda sala, me deparo com um dos quadros que mais ansiava encontrar: Restaurante (1915), óleo/tela de Nadejda Udaltsova. Lançando mão de um cubismo que considero chique a pintora retrata o ambiente de um restaurante que também merece esse adjetivo – se reconhece um casal a mesa, também um instrumento de corda, que pode ser um violino e o menu.  Quando o menu se populariza nos restaurantes Russos? O que consta nesse menu? Que bebida era servida como acompanhamento? Qual o tipo e a ordem de serviço eram executados a mesa? Adoraria acreditar que o chamado Serviço à Russa.

Ai que emoção, um Marc Chagall a poucos centímetros dos meus olhos – Passeio (1917) óleo/tela. Nesse quadro o que me interessa é o que está sobre a toalha do pic-nic. Só me parece haver mesmo um recipiente para vinho e taças. Trata-se mesmo de vinho? Era comum os casais saírem para um encontro e levar consigo algo para beber ou comer, consolidando um delicioso hábito que é o de comer (e beber) ao ar livre?

Duas obras de Filónov se seguem ao meio roteiro, aqui o simbolismo parece ganhar mais peso, assim como a adesão a distintas linguagens visuais. No primeiro quadro, As vaqueiras. (1914) óleo/tela. Vêem-se animais sendo alimentados: que animais são esses e eram criados com que finalidade?  Vê-se também o leite sendo ordenhado, a que se destina essa produção, ao consumo doméstico ou era comercializado? Usado in natura ou como matéria prima para a fabricação de derivados? Onde era processado? Por quais processos? E as árvores com frutas que se insinuam nos ângulos superiores da obra? Que frutas são estas?

No segundo quadro do artista, Três homens numa mesa. (1917) óleo/tela. Três homens estão sobre a mesa na qual estão dispostas frutas, jarros e taças. Teria o autor alguma intenção simbólica ao eleger as frutas ai representadas? Que frutas são essas? Há em meio a elas uma espécie de pinha, será que se trata de uma daquelas que experimentei trazidas da Rússia por uma estudante alemã?

Já estava assoberbado de questões, ainda tenho que me deparar com novas linguagens visuais para representar naturezas mortas, como a do artista Shterenberg, Natureza morta com cerejas (1919), na qual cerejas dividem espaço com facas sobre uma mesa, não se tratam de símbolos caros ao campo gastronômico? e Mesa (1919), natureza morta. óleo/tela de Puni, na qual frutas e garrafas são objetos centrais.

Claro que um dos mais revolucionários e versáteis artistas russos, não poderia deixar de se preocupar com temas que interessam o campo gastronômico, veja o quadro Indo para a colheita. (1928/29) óleo/tela de Malievitch. O que será que vão colher, heim?

Mesmo nas raízes utilitarista e do realismo suprematista, predominam objetos do domínio da cozinha. Porque ao eleger objetos do uso cotidiano o artista elege tais objetos? Objetos de uso doméstico que insinuam uma proximidade com o dia-a-dia dos expectadores não parecem faltar numa casa, vassouras, cinzeiros, candelabros parecem integrar a rotina da maior parte dos lares, não se restringindo a nenhuma classe social. Xícaras, pratos e bandejas não fazem parte apenas do ambiente doméstico, mas antes de tudo ao domínio da cozinha. Seguem quatro exemplos desses:

Xícara (1923) de Malievitch. Pintura esmalte sobre porcelana.

Prato suprematismo. (fim da década de 1920) de Svietia. Porcelana pintura sobre esmalte. Com disco negro.

Prato – terra para trabalhadores (1919) de Natan Alfman. Pintura esmalte sobre porcelana.

Bandeja proletários de todos os países uniu-vos. (1925) de Schúlman.

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